terça-feira, 16 de novembro de 2010

Santa Gertrudes, a Grande (por Bento XVI)

Queridos irmãos e irmãs:

Santa Gertrudes a Grande, sobre quem eu gostaria de vos falar hoje, leva-nos também ao mosteiro de Helfta esta semana; lá nasceram algumas das obras-primas da literatura religiosa feminina latino-germânica. A esse mundo pertence Gertrudes, uma das místicas mais famosas, única mulher da Alemanha que tem o apelativo de "a Grande", por sua estatura cultural e evangélica: com a sua vida e seu pensamento, ela incidiu de forma singular na espiritualidade cristã. É uma mulher excepcional, dotada de talentos naturais particulares e de extraordinários dons da graça, de profundíssima humildade e ardente zelo pela salvação do próximo, de íntima comunhão com Deus na contemplação e disponibilidade para socorrer os necessitados.
Em Helfta se compara, por assim dizer, sistematicamente com sua mestra, Matilde de Hackeborn, de quem falei na audiência da última quarta-feira; entra em relação com Matilde de Magdeburgo, outra mística medieval; e cresce sob o cuidado maternal, doce e exigente da abadessa Gertrudes. Destas três irmãs suas, adquire tesouros de experiência e sabedoria; e os elabora em uma síntese própria, percorrendo seu itinerário religioso com confiança ilimitada no Senhor. Expressa a riqueza da espiritualidade não somente em seu mundo monástico, mas também - e sobretudo - no mundo bíblico, litúrgico, patrístico e beneditino, com um selo personalíssimo e com grande eficácia comunicativa.
Ela nasceu em 6 de janeiro de 1256, festa da Epifania, mas não se sabe nada sobre seus pais nem sobre o lugar de nascimento. Gertrudes escreve que o próprio Senhor lhe revela o sentido desse primeiro desapego seu; afirma que o Senhor teria dito: "Eu a escolhi como minha morada e me alegro porque tudo que há de belo nela é obra minha (...). Precisamente por esta razão, afastei-a de todos os seus parentes, para que ninguém a amasse por motivo de consanguinidade e eu fosse a única razão do afeto que a move" (As revelações, I, 16, Sena, 1994, p. 76-77).
Aos 5 anos, em 1261, entrou no mosteiro, como era costume naquela época, para a formação e o estudo. Lá transcorreu toda a sua existência, da qual ela mesma indica as etapas mais significativas. Em suas memórias, recorda que o Senhor a preservou com paciência generosa e infinita misericórdia, esquecendo dos anos de sua infância, adolescência e juventude, transcorridos - escreve - "em tal cegueira de mente, que eu teria sido capaz (...) de pensar, dizer ou fazer, sem nenhum remorso, o que me desse vontade, aonde quer que fosse, se Tu não tivesses me preservado, seja com um horror inerente pelo mal e uma natural inclinação ao bem, seja com a vigilância externa dos demais. Eu teria me comportado como uma pagã (...) e isso mesmo Tu querendo que, desde a infância, desde o meu quinto ano de idade, eu habitasse no santuário abençoado da religião, para ser educada entre os teus amigos mais devotos" (Ibid., II, 23 140s).
Gertrudes foi uma estudante extraordinária, aprendeu tudo o que podia aprender das ciências do Trívio e do Quadrívio; era fascinada pelo saber e se dedicou ao estudo profano com ardor e tenacidade, conseguindo êxitos escolares muito além de toda expectativa. Se não sabemos nada sobre suas origens, ela contou muito sobre suas paixões juvenis: a literatura, a música, o canto e a arte da miniatura a cativaram. Tinha um caráter forte, decidido, imediato, impulsivo; frequentemente afirmava que era negligente; reconheceu seus defeitos, pediu humildemente perdão por eles. Com humildade, pediu conselhos e orações por sua conversão. Há características do seu temperamento e defeitos que a acompanharão até o final, até o ponto de assustar algumas pessoas, que se perguntam como é possível que o Senhor a prefira tanto.
De estudante, passou a consagrar-se totalmente a Deus na vida monástica e, durante 20 anos, não aconteceu nada de extraordinário: o estudo e a oração foram sua principal atividade. Devido aos seus dons, ela se sobressaía entre suas irmãs; era tenaz em consolidar sua cultura em campos diversos. Mas, durante o Advento de 1280, começou a sentir desgosto por tudo aquilo, percebeu sua vaidade e, em 27 de janeiro de 1281, poucos dias antes da festa da Purificação de Maria, na hora das Completas, o Senhor iluminou suas densas trevas. Com suavidade e doçura, acalmou a turbação que a angustiava, turbação que Gertrudes via como um dom de Deus "para abater essa torre de vaidade e de curiosidade que - ai de mim - ainda carregando o nome e o hábito de religiosa, fui elevando com a minha soberba, e pelo menos assim, encontrar o caminho para mostrar-me tua salvação" (Ibid., II,1, p. 87).
Ela teve a visão de um jovem que a guiava para superar o emaranhado de espinhos que oprimia sua alma, estendendo-lhe a mão. Nessa mão, Gertrudes reconheceu "a preciosa marca dessas chagas que ab-rogaram todas as atas de acusação dos nossos inimigos" (Ibid., II,1, p. 89); reconheceu Aquele que sobre a cruz nos salvou com seu sangue, Jesus.
Desde aquele momento, sua vida de comunhão com o Senhor se intensificou, sobretudo nos tempos litúrgicos mais significativos - Advento, Natal, Quaresma, Páscoa, festas de Nossa Senhora - ainda quando, doente, não podia se dirigir ao coro. É o mesmo húmus litúrgico de Matilde, sua mestra, que Gertrudes, no entanto, descreve com imagens, símbolos e termos mais simples e lineares, mais realistas, com referências mais diretas à Bíblia, aos Padres, ao mundo beneditino.
Sua biógrafa indica duas direções do que poderíamos chamar de particular "conversão" sua: nos estudos, com a passagem radical dos estudos humanistas profanos aos teológicos, e na observância monástica, com a passagem da vida que ela define como negligente à vida de oração intensa, mística, com um excepcional ardor missionário. O Senhor, que a havia escolhido desde o seio materno e que desde pequena lhe fizera participar do banquete da vida monástica, volta a chamá-la, com sua graça, "das coisas externas à vida interior; e das ocupações terrenas ao amor pelas coisas espirituais". Gertrudes compreende que esteve longe d'Ele, na região da dissimilitude, como diz Santo Agostinho: de ter-se dedicado com muita avidez aos estudos liberais, à sabedoria humana, descuidando a ciência espiritual, privando-se do gosto pela verdadeira sabedoria, agora é conduzida ao monte da contemplação, onde deixa o homem velho para revestir-se do novo. "De gramática, converte-se em teóloga, com a leitura incansável dos livros sagrados que podia ter ou obter e enchia seu coração com as mais úteis e doces sentenças da Sagrada Escritura. Tinha, por isso, sempre pronta uma palavra inspirada e de edificação para satisfazer os que iam consultá-la e, ao mesmo tempo, os textos escriturísticos mais adequados para rebater qualquer opinião errônea e fazer calar seus oponentes" (Ibid., I,1, p. 25).
Gertrudes transforma tudo isso em apostolado: dedica-se a escrever e divulgar as verdades da fé com clareza e simplicidade, graça e persuasão, servindo com amor e fidelidade a Igreja, até o ponto de ser útil e bem-vinda para os teólogos e pessoas piedosas. Desta intensa atividade sua, resta-nos pouco, também devido às circunstâncias que levaram à destruição do mosteiro de Helfta. Além do "Arauto do amor divino" e "As revelações", temos os "Exercícios Espirituais", uma joia rara da literatura mística espiritual.
Na observância religiosa, nossa santa é "uma coluna firme (...), firmíssima propugnadora da justiça e da verdade", diz sua biógrafa (Ibid., I, 1, p. 26). Com as palavras e o exemplo, suscitava nos demais grande fervor. Às orações e às penitências da regra monástica, acrescentava outras com tal devoção e abandono confiado em Deus, que provocava, em quem a encontrava, a consciência de estar na presença do Senhor. E, de fato, o próprio Deus lhe dá a entender que a chamou para ser instrumento da sua graça. Deste imenso tesouro divino, Gertrudes se sentia indigna, confessou não tê-lo protegido e valorizado. Exclamou: "Ai de mim! Se Tu tivesses me dado para lembrança tua, indigna como sou, inclusive um só fio de estopa, ele deveria ser guardado com maior respeito e reverência do que eu tive por estes teus dons!" (Ibid., II,5, p. 100). Mas, reconhecendo sua pobreza e indignidade, ela adere à vontade de Deus, "porque - afirma - aproveitei tão pouco suas graças, que não posso decidir acreditar que foram concedidas somente para mim, não podendo tua eterna sabedoria ser frustrada por alguém. Faze, portanto, ó Dador de todo bem, Tu que me concedeste gratuitamente dons tão imerecidos, que, lendo este escrito, o coração de pelo menos um dos teus amigos se comova pelo pensamento de que o zelo pelas almas te levou a deixar durante tanto tempo uma joia de valor tão inestimável em meio ao lodo abominável do meu coração" (Ibid., II,5, p. 100s).
Em particular, dois favores lhe foram mais queridos que qualquer outro, como escreveu a própria Gertrudes: "Os estigmas das tuas chagas, que imprimiste em mim como joias preciosas no coração, e a profunda e saudável ferida de amor com que o marcaste. Tu me inundaste com estes dons teus de tanta alegria que, ainda que eu tivesse de viver mil anos sem nenhum consolo, nem interior nem exterior, sua lembrança bastaria para reconfortar-me, iluminar-me, encher-me de gratidão. Quiseste também introduzir-me na inestimável intimidade da tua amizade, abrindo-me de muitas formas esse sacrário nobilíssimo da tua divindade, que é o teu Coração divino (...). A esse cúmulo de benefícios, acrescentaste o de dar-me por advogada a Santíssima Virgem Maria, tua Mãe, e de ter me recomendado frequentemente seu afeto como o mais fiel dos esposos poderia recomendar à sua própria mãe sua esposa querida" (Ibid., II, 23, p. 145).
Dirigida à comunhão sem fim, concluiu sua vida terrena no dia 17 de novembro de 1301 ou 1302, aos quase 46 anos. No sétimo Exercício, o da preparação para a morte, Santa Gertrudes escreveu: "Ó Jesus, Tu que me és imensamente querido, fica sempre comigo, para que o meu coração permaneça contigo e teu amor persevere comigo sem possibilidade de divisão, e meu trânsito seja abençoado por Ti, de maneira que meu espírito, livre dos laços da carne, possa imediatamente encontrar repouso em Ti. Amém." (Esercizi, Milão, 2006, p. 148).
Parece-me óbvio que estas não são somente coisas do passado, históricas, mas que a existência de Santa Gertrudes continua sendo uma escola de vida cristã, de reto caminho, que nos mostra que o centro de uma vida feliz, de uma vida verdadeira, é a amizade com Jesus, o Senhor. E essa amizade se aprende no amor pela Sagrada Escritura, no amor pela liturgia, na fé profunda, no amor a Maria, de forma que se conheça cada vez mais realmente o próprio Deus e, assim, a verdadeira felicidade, a meta da nossa vida.
Obrigado.

domingo, 14 de novembro de 2010

Aconteceu...

Monjas Beneditinas visitam Caratinga

(publicado em 25 de Agosto de 2010)


As irmãs Maria de Fátima e Maria de Nazaré chegaram a Caratinga no dia 22 de agosto, para uma visita missionária histórica. Vieram pela primeira vez a Caratinga para se reunir com os oblatos, noviços e postulantes da Ordem Secular de São Bento vinculada ao Mosteiro São João Batista de Campos do Jordão.
Na oportunidade, se encontraram com o diretor espiritual do grupo de oblatos, padre Ademilson Tadeu Quirino. Estiveram com padre David José Gonçalves, pároco da Catedral, com o Vigário Geral da Diocese, Monsenhor Raul Motta de Oliveira e com o Bispo Diocesano, Dom Hélio Gonçalves Heleno.



Aproveitaram para conhecer o Santuário da Adoração, o Seminário Diocesano Nossa Senhora do Rosário de Caratinga e a comunidade das irmãs Missionárias Nossa Senhora das Graças (irmãs Gracianas). Santo Antônio do Manhuaçu, distrito de Caratinga também recebeu as irmãs beneditinas.

 


Seu retorno para Campos do Jordão será nesta quarta-feira, dia 25 de agosto. Os oblatos de Caratinga agradecem a visita missionária e pastoral das irmãs e ficam aguardando o próximo encontro para estudo, reflexão, oração, partilha e confraternização.



Fonte: http://www.diocesecaratinga.org.br/site/noticias/noticias/710-monjas-beneditinas-visitam-caratinga
Fotos: Pe. Ademilson Tadeu Quirino






OS OBLATOS

No momento, o Mosteiro possui um grupo de oblatos que conta com quarenta e seis participantes entre oblatos, noviços, postulantes e candidatos, de diversas partes do país (Minas Gerais, Rio de Janeiro, Amazonas, São Paulo). Na cidade de Campos do Jordão se reúnem uma vez ao mês para discussões de temas referentes à Regra de São Bento e à vida monástica beneditina. Na cidade de Caratinga, Minas Gerais, formou um grupo de oblatos, que se reúnem todas as segundas-feiras e na cidade do Rio de Janeiro, há um pequeno grupo que se reúne todas sexta-feira.

Nossa primeira oblação data de 1987, e a partir daí o grupo vem crescendo paulatinamente. Contamos hoje com 15 oblatos, 6 noviços e 10 postulantes.



Os Oblatos da Diocese de Caratinga

Por volta do ano de 2007, Ir. Maria José, uma das monjas do Mosteiro São João, nascida em Caratinga, cuja família vive nesta cidade, passou a freqüentar a Casa de Maria e sua obra social. Como grande catequista e apóstola que era, divulgou a obra de São Bento para os participantes desta Casa. Alguns deles se apaixonaram por este ideal e manifestaram o desejo de serem oblatos. A partir daí a própria Ir. Maria José lhes ministrou os primeiros passos na formação e os levou até Campos do Jordão, onde fizeram o seu primeiro retiro espiritual. A partir daí, anualmente, os membros do grupo fazem um retiro anual no Mosteiro, ocasião na qual recebem formação, tem momentos de oração, aconselhamento e celebrativos.

Por morarem em cidade tão distante do Mosteiro, tem características peculiares, pois reúnem-se semanalmente para rezar o Ofício de Vésperas e terem o seu momento de formação. O grupo de oblatos de Caratinga é bem participante da vida da diocese como verdadeiros filhos da Igreja. Além disso, por serem em sua maioria membros da Casa de Maria, tem uma espiritualidade também mariana. Possuem uma coordenação local, sujeita à diretora dos oblatos e suas assistentes, bem como à Abadessa do Mosteiro São João. Além disso, possuem um padre na qualidade de orientador espiritual do grupo, que é Padre Ademilson.

A diretora dos oblatos é uma monja de votos perpétuos designada pela Abadessa do Mosteiro para exercer essa função, contando com assistentes. Atualmente, a diretora dos oblatos do Mosteiro São João é Ir. Maria de Fátima Guimarães, OSB, que conta com a colaboração de Ir. Maria Hildegardes Gomes, OSB e Ir.Maria de Nazaré Campos , OSB. A Abadessa do Mosteiro é Madre Myriam de Castro, OSB, é a segunda abadessa do Mosteiro, eleita em 14 de maio de 2001, e que recebeu a benção abacial em 01 de julho de 2001, das mãos do bispo diocesano, D. Carmo João Rhoden.


sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Recado do Ir. Michael



Meus amados irmãos e irmãs!
Benedicite!

É com grande alegria que a comunidade do Mosteiro de São João através de nossa Madre Abadessa e de todos os oblatos acolhem mais 3 noviças que realização no próximo dia 14.11.2010 durante a missa conventual sua "Oblação Monástica segundo a Regra de NP São Bento".
Pedimos a todos suas orações por essas nossas queridas irmãs da cidade de Caratinga - MG

Sempre unidos no Altar do Senhor!



Ir. Michael (Fernando), obl. OSB

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Santa Margarida de Oingt, por Bento XVI

Caros, benedicite!

O Papa nos dirige as palavras abaixo para que reflitamos acerca do caráter contemplativo que cercou a vida da monja Margarida de Oingt. Seja esta uma oportunidade de revermos o caráter contemplativo que nossas atitudes devem empreender, cerne de nossa espiritualidade.
Abraços fraternais!





Queridos irmãos e irmãs:



Com Margarida de Oingt, de quem eu gostaria de vos falar hoje, entramos na espiritualidade cartusiana, que se inspira na síntese evangélica vivida e proposta por São Bruno. Não conhecemos sua data de nascimento, ainda que alguns a situem por volta de 1240. Margarida provém de uma poderosa família da nobreza antiga do Lyonnais, os Oingt. Sabemos que sua mãe também se chamava Margarida, que tinha dois irmãos (Guiscardo e Luís) e três irmãs (Catarina, Isabel e Inês). Esta última a seguirá ao mosteiro, na Cartuxa, sucedendo-a depois como priora.
Não temos notícias sobre sua infância, mas, por seus escritos, podemos intuir que transcorreu tranquila, em um ambiente familiar afetuoso. De fato, para expressar o amor sem limites de Deus, ela valorizava muito as imagens ligadas à família, com particular referência às figuras do pai e da mãe. Em uma meditação sua, diz assim: "Muito doce Senhor, penso nas graças especiais que me deste por tua solicitude: antes de tudo, como me protegeste desde a minha infância e como me afastaste do perigo e me chamaste a dedicar-me ao teu santo serviço, como provieste em todas as coisas que me eram necessárias para comer, beber, vestir e calçar, e o fizeste de tal forma que não tive ocasião de pensar em todas estas coisas, a não ser em tua grande misericórdia" (Margherita d'Oingt, Scritti spirituali, Meditazione V, 100, Cinisello Balsamo 1997, p. 74).
Sempre em suas meditações, intuímos que entrou na Cartuxa de Polenteins em resposta ao chamado do Senhor, deixando tudo e aceitando a severa regra cartusiana, para ser totalmente do Senhor, para estar sempre com Ele. Ela escreve: "Doce Senhor, eu deixei o meu pai, a minha mãe, os meus irmãos e todas as coisas deste mundo pelo teu amor; mas isso é pouquíssimo, porque as riquezas deste mundo não são senão espinhos que espetam; e quanto mais as possuímos, mas somos infortunados. E por isso me parece não ter deixado outra coisa senão miséria e pobreza; mas Tu sabes, doce Senhor, que se eu possuísse mil mundos e pudesse dispor deles segundo a minha vontade, não me consideraria saciada enquanto não tivesse a Ti, porque Tu és a vida da minha alma; não tenho nem quero ter pai e mãe fora de Ti" (ibid., Meditazione II, 32, p. 59).
Também da sua vida na Cartuxa temos poucos dados. Sabemos que em 1288 ela se converteu na quarta priora, cargo que manteve até a sua morte, ocorrida em 11 de fevereiro de 1310. Dos seus escritos, contudo, não se desprendem viradas particulares em seu itinerário espiritual. Ela concebe toda a vida como um caminho de purificação até a configuração plena com Cristo. Ele é o livro que se escreve, que incide diariamente no próprio coração e na própria vida, em particular sua paixão salvadora. Na obra Speculum, Margarida, referindo-se a si mesma em terceira pessoa, sublinha que, por graça do Senhor, "havia gravado em seu coração a santa vida que Deus Jesus Cristo levou na terra, seus bons exemplos e sua boa doutrina. Ela tinha colocado tão bem o doce Jesus Cristo em seu coração, que lhe parecia inclusive que este estivesse presente e que tivesse um livro fechado em sua mão, para instruí-la" (ibid., I, 2-3, p. 81). "Neste livro, ela encontrava escrita a vida que Jesus Cristo levou na terra, desde o seu nascimento até sua ascensão ao céu" (ibid., I, 12, p. 83).
Cada dia, desde a manhã, Margarida se dedica ao estudo deste livro. E, quando o observou bem, começa a ler o livro em sua própria consciência, que mostra as falsidades e as mentiras da sua própria vida (cf. ibid., I, 6-7, p. 82); escreve sobre si mesma para ajudar os demais e para fixar mais profundamente no seu próprio coração a graça da presença de Deus, isto é, para fazer que cada dia sua existência esteja marcada pela confrontação com as palavras e ações de Jesus, com o Livro da vida d'Ele. E isso para que a vida de Cristo seja impressa em sua alma de forma estável e profunda, até poder ver o Livro em seu interior, ou seja, até contemplar o mistério de Deus Trindade (cf. ibid., II, 14-22; III, 23-40, p. 84-90).
Através dos seus escritos, Margarida nos oferece alguns resquícios sobre sua espiritualidade, permitindo-nos captar alguns traços da sua personalidade e dos seus dons de governo. É uma mulher muito culta; escreve habitualmente em latim, a língua dos eruditos, mas também escreve em franco-provençal, o que também é raro: seus escritos são, assim, os primeiros, dos que se tem memória, redigidos nessa língua. Ela vive uma existência rica em experiências místicas, descritas com simplicidade, deixando intuir o inefável mistério de Deus, sublinhando os limites da mente para apreendê-lo e a inadequação da língua humana para exprimi-lo. Tem uma personalidade linear, simples, aberta, de doce carga afetiva, de grande equilíbrio e agudo discernimento, capaz de entrar nas profundezas do espírito humano, de descobrir seus limites, suas ambiguidades, mas também suas aspirações, a tensão da alma até Deus. Mostra uma destacada aptidão para o governo, conjugando sua profunda vida espiritual mística com o serviço às irmãs e à comunidade. Neste sentido, é significativa um trecho de uma carta ao seu pai. Ela escreve: "Meu doce pai, comunico que me encontro tão ocupada com as necessidades da nossa casa, que não me é possível aplicar o espírito em bons pensamentos; de fato, tenho tanto a fazer, que não sei para que lado ir. Não recolhemos trigo no sétimo mês do ano e nossas vinhas foram destruídas pela tempestade. Além disso, nossa igreja se encontra em tão más condições, que nos vemos obrigados a reconstruí-la em parte" (ibid., Lettere, III, 14, p. 127).
Uma monja cartusiana descreve assim a figura de Margarida: "Através da sua obra, revela-se uma personalidade fascinante, de inteligência viva, orientada à especulação e, ao mesmo tempo, favorecida por graças místicas: em uma palavra, uma mulher santa e sábia que sabe expressar com certo humor uma intensa afetividade espiritual" (Una Monaca Certosina, Certosine, en Dizionario degli Istituti di Perfezione, Roma 1975, col. 777). No dinamismo da vida mística, Margarida valoriza a experiência dos afetos naturais, purificados pela graça, como meio privilegiado para compreender mais profundamente e seguir com mais prontidão e ardor a ação divina. O motivo reside no fato de que a pessoa humana é criada à imagem de Deus e por isso é chamada a construir, com Deus, uma maravilhosa história de amor, deixando-se envolver totalmente pela sua iniciativa.
O Deus Trindade, o Deus amor que se revela em Cristo a fascina, e Margarida vive uma relação de amor profunda com o Senhor e, por contraste, vê a ingratidão humana até a vileza, até o paradoxo da cruz. Ela afirma que a cruz de Cristo é parecida com a mesa do parto. A dor de Jesus é comparada à de uma mãe. Escreve: "A mãe que me carregou no ventre sofreu fortemente ao dar-me à luz, durante um dia ou uma noite, mas tu, dulcíssimo Senhor, por mim foste atormentado não uma noite ou um dia, mas durante mais de 30 anos (...). Quão amargamente sofreste por minha causa durante toda a vida! E quando chegou o momento do parto, teu trabalho foi tão doloroso, que teu santo suor se converteu em gotas de sangue que se derramavam por todo o teu corpo até o chão" (ibid., Meditazione I, 33, p. 59). Margarida, evocando os relatos da paixão, contempla estas dores com profunda compaixão. Diz: "Foste depositado no duro leito da cruz, de forma que não podias mover-te, virar-te ou agitar teus membros, como costuma fazer um homem que sofre uma grande dor, porque foste completamente estendido e te crucificaram com pregos (...); foram lacerados todos os teus músculos e tuas veias (...). Mas todas essas dores (...) ainda não te bastavam, tanto que quiseste que teu lado fosse aberto pela lança tão cruelmente, que teu dócil corpo foi totalmente arado e desgarrado; e teu sangue brotava com tanta violência, que formava um longo caminho, quase como se fosse uma grande corrente". Referindo-se a Maria, afirma: "Não era de maravilhar-se que a espada que te desfez o corpo penetrasse também no coração da tua gloriosa mãe, que tanto queria sustentar-te (...), porque teu amor foi superior a todos os demais amores" (ibid., Meditazione II, 36-39.42, p 60s).
Queridos amigos, Margarida de Oingt nos convida a meditar diariamente sobre a vida de dor e de amor de Jesus e da sua Mãe, Maria. Aqui está a nossa esperança, o sentido do nosso existir. Da contemplação do amor de Cristo por nós nascem a força e a alegria de responder com o mesmo amor, colocando nossa vida ao serviço de Deus e dos demais. Com Margarida, dizemos também nós: "Doce Senhor, tudo o que realizaste, por amor a mim e a todo o gênero humano, leva-me a amar-te, mas a lembrança da tua santíssima paixão dá um vigor sem igual à minha potência de afeto para amar-te. Por isso me parece (...) ter encontrado o que tanto desejei: não amar outra coisa a não ser Tu, em Ti ou por amor a Ti" (ibid., Meditazione II, 46, p. 62).
À primeira vista, esta figura cartusiana medieval, como toda a sua vida, seu pensamento, parecem muito distantes de nós, da nossa vida, da nossa forma de pensar e agir. Mas se observarmos o essencial desta vida, veremos que também nos diz respeito e que deveria ser tão essencial também em nossa própria existência.
Ouvimos que Margarida concebeu o Senhor como um livro, fixou seu olhar no Senhor, considerando-O como um espelho no qual aparece também sua própria consciência. E a partir deste espelho, entrou luz em sua alma: deixou entrar a palavra, a vida de Cristo, seu próprio ser e assim foi transformada; sua consciência foi iluminada, encontrou critérios, luz e foi purificada. É precisamente disso que nós precisamos: deixar entrar as palavras, a vida, a luz de Cristo em nossa consciência, para que seja iluminada, para que compreenda o que é verdadeiro e bom e o que é mau; que seja iluminada e purificada a nossa consciência. O lixo não está somente nas ruas do mundo. Há lixo também nas nossas consciências e nas nossas almas. Só a luz do Senhor, sua força e seu amor é o que nos limpa, nos purifica e nos conduz no caminho reto. Portanto, sigamos Santa Margarida neste olhar dirigido a Jesus. Leiamos no livro da sua vida, deixemo-nos iluminar e limpar, para aprender a vida verdadeira. Obrigado.

terça-feira, 2 de novembro de 2010

Dies Irae

Benedicite!



Clique no link abaixo para ouvir este belo hino do século XIII, que trata justamente do julgamento que a humanidade há de sofrer, num primeiro momento individualmente (na hora da morte) e depois todos os viventes na volta do Cristo (parusia). Acredita-se ter sido escrito por Tomás de Celano. Sua inspiração parece vir da Vulgata, tradução de Sofonias 1:15–16. Originalmente era a sequência da Missa de Defuntos, porém depois da Reforma Conciliar, a Igreja propõe-o para a celebração do Ofício Divino (forma Romana) precisamente na Última Semana do Tempo Comum, em que refletimos acerca da Escatologia Final. Serve como uma bela reflexão para o dia de Finados. Aliás, atendamos o que NP São Bento nos pede na Santa Regra, para que reflitamos acerca da morte todos os dias.


http://www.youtube.com/watch?v=Dlr90NLDp-0


Segue a letra, em latim, e logo abaixo a tradução. Para os que lêem a notação neumática e gostam de gregoriano, segue a partitura.




Dies Irae


1


Dies iræ! dies illa

Solvet sæclum in favilla

Teste David cum Sibylla!



2

Quantus tremor est futurus,

quando judex est venturus,

cuncta stricte discussurus!



3

Tuba mirum spargens sonum

per sepulchra regionum,

coget omnes ante thronum.



4

Mors stupebit et natura,

cum resurget creatura,

judicanti responsura.



5

Liber scriptus proferetur,

in quo totum continetur,

unde mundus judicetur.



6

Judex ergo cum sedebit,

quidquid latet apparebit:

nil inultum remanebit.



7

Quid sum miser tunc dicturus?

Quem patronum rogaturus,

cum vix justus sit securus?



8

Rex tremendæ majestatis,

qui salvandos salvas gratis,

salva me, fons pietatis.



9

Recordare, Jesu pie,

quod sum causa tuæ viæ:

ne me perdas illa die.



10

Quærens me, sedisti lassus:

redemisti Crucem passus:

tantus labor non sit cassus.



11

Juste judex ultionis,

donum fac remissionis

ante diem rationis.



12

Ingemisco, tamquam reus:

culpa rubet vultus meus:

supplicanti parce, Deus.



13

Qui Mariam absolvisti,

et latronem exaudisti,

mihi quoque spem dedisti.



14

Preces meæ non sunt dignæ:

sed tu bonus fac benigne,

ne perenni cremer igne.



15

Inter oves locum præsta,

et ab hædis me sequestra,

statuens in parte dextra.



16

Confutatis maledictis,

flammis acribus addictis:

voca me cum benedictis.



17

Oro supplex et acclinis,

cor contritum quasi cinis:

gere curam mei finis.



18


Lacrimosa dies illa,

qua resurget ex favilla

judicandus homo reus.



19

Huic ergo parce, Deus:

Pie Jesu Domine,

dona eis requiem. Amen.

 

 
Tradução:


1

Dia da Ira, aquele dia

Em que os séculos se desfarão em cinzas,

Testemunham David e Sibila!



2

Quanto terror é futuro,

quando o Juiz vier,

para julgar a todos irrestritamente !



3

A tuba esparge o poderoso som

pela região dos sepulcros,

convocando todos ante o Trono.



4

A morte e a natureza se aterrorizam

ao ressurgir a criatura

para responder ao Juiz.



5

o Livro escrito aparecerá

em que tudo há

em que o mundo será julgado.



6

Quando o Juiz se assentar

o oculto se revelará,

nada haverá sem castigo !



7

Que direi eu, pobre miserável?

A que Paráclito rogarei,

quando só os justos estão seguros ?



8

Rei, tremenda Majestade,

que ao salvar, salva pela Graça,

salva-me, fonte Piedosa.



9

Recordai-vos, piedoso Jesus,

de que sou a causa de Vossa Via;

não me percais nesse dia.



10

Resgatando-me, sentistes lassidão,

me redimistes sofrendo a Cruz;

Que tanto trabalho não tenha sido em vão.



11

Juiz Justo da Vingança Divina,

Dai-me a remissão dos meus pecados,

antes do dia Final.



12

Clamo, como condenado,

a culpa enrubesce meu semblante

suplico a Vós, ó Deus



13

Ao que perdoou a Madalena,

e ouviu à súplica do ladrão,

Dai-me também esperança.



14

Minha oração é indigna,

mas, pela Vossa Bondade atuais,

Não me deixeis perecer cremado no Fogo Eterno.



15

Colocai-me com as ovelhas

Separai-me dos cabritos,

Ponde-me à Vossa direita;



16

Condenai os malditos,

lançai-os nas flamas famintas,

Chamai-me aos benditos.



17

Oro-Vos, rogo-Vos de joelhos,

com o coração contrito em cinzas,

cuidai do meu fim.



18

Lacrimoso aquele dia

no qual, das cinzas, ressurgirá,

para ser julgado, o homem réu.



19

Perdoai-os, Senhor Deus

Piedoso Senhor Jesus,

Dai-lhes descanso eterno, Amém!

Reflexão de Santo Ambrósio para o dia de Finados

Do Livro sobre a morte de seu irmão Sátiro, de Santo Ambrósio, bispo

(Lib. 2,40.41.46.47.132.133:CSEL 73,270-274.323-324)
(Séc.IV)


Morramos com Cristo, para vivermos com ele


Percebemos que a morte é lucro, e a vida, castigo. Por isso Paulo diz: Para mim, viver é Cristo, e morrer é lucro (Fl 1,21). Como unir-se a Cristo, espírito da vida, senão pela morte do corpo? Morramos então com ele, para com ele vivermos. Morramos diariamente no desejo e em ato, para que, por esta segregação,nossa alma aprenda a se subtrair das concupiscências corporais.

Que ela, como se já estivesse nas alturas, onde não a alcançam os desejos terrenos, aceite a imagem da morte para não incorrer no castigo da morte. Pois a lei da carne luta contra a lei do espírito e apóia-se na lei do erro. Mas qual o remédio? Quem me libertará deste corpo de morte? (Rm 7,24) A graça de Deus, por Jesus Cristo, nosso Senhor (cf. Rm 7,25s).

Temos o médico, usemos o remédio. Nosso remédio é a graça de Cristo, e corpo de morte é o nosso corpo. Portanto afastemo-nos do corpo e não se afaste de nós o Cristo! Embora ainda no corpo, não lhe obedeçamos, não abandonemos as leis naturais, mas prefiramos os dons da graça.

E que mais? Pela morte de um só, o mundo foi remido. Cristo, se quisesse, poderia não ter morrido. Não julgou, porém, dever fugir da morte como coisa inútil nem que nos salvaria melhor, evitando a morte. Com efeito, sua morte é a vida de todos. Somos marcados com sua morte, ao orar anunciamos sua morte, ao oferecer o sacrifício pregamos sua morte. Sua morte é vitória, é sacramento, é a solenidade anual do mundo.
Não diremos ainda mais sobre a sua morte, se provarmos pelo exemplo divino que dela resultou a imortalidade, e que a morte se redimiu a si mesma? Não se deve lastimar a morte, que é causa da salvação do povo. Não se deve fugir da morte, que o Filho de Deus não rejeitou, e da qual não fugiu.

Na verdade, a morte não era da natureza, mas converteu-se em natureza. No princípio, Deus não fez a morte, mas deu-a como remédio. Pela prevaricação, condenada ao trabalho de cada dia e ao gemido intolerável, a vida dos homens começou a ser miserável. Era preciso dar fim aos males, para que a morte restituísse o que a vida perdera. Pois a imortalidade seria mais penosa que benéfica, se não fosse promovida pela graça.

Por isso, tem o espírito de afastar-se logo da vida tortuosa e das nódoas do corpo terreno, e lançar-se para a celeste assembléia, embora pertença só aos santos lá chegar, e cantar a Deus o louvor, descrito no livro profético, que os citaristas cantam: Grandes e maravilhosas tuas obras, Senhor Deus onipotente; justos e verdadeiros teus caminhos, ó Rei das nações! Quem não temeria e não glorificaria teu nome? Porque só tu és santo; todos os povos irão e se prostrarão diante de ti (Ap 15,3-4). Contemplar também, ó Jesus, tuas núpcias, nas quais a esposa, ao canto jubiloso de todos, é conduzida da terra ao céu – a ti virá toda carne (Sl 64,3) – já não mais manchada pelo mundo, mas unida ao espírito.

Era isto que o santo Davi desejava, acima de tudo, contemplar e admirar, quando dizia: Uma só coisa pedi ao Senhor, a ela busco: habitar na casa do Senhor todos os dias de minha vida e ver as delícias do Senhor (Sl 26,4).



segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Para auxiliar na Lectio Divina

EVANGELHO DE HOJE - O HOMEM DE MÃO SECA


Lc 6, 6-11


Aconteceu num dia de sábado que 6Jesus entrou na sinagoga e começou a ensinar. Aí havia um homem cuja mão direita era seca. 7Os mestres da Lei e os fariseus o observavam, para ver se Jesus iria curá-lo em dia de sábado, e assim encontrarem motivo para acusá-lo. 8Jesus, porém, conhecendo seus pensamentos, disse ao homem da mão seca: “Levanta-te, e fica aqui no meio”. Ele se levantou, e ficou de pé. 9Disse-lhes Jesus: “Eu vos pergunto: O que é permitido fazer no sábado: o bem ou o mal, salvar uma vida ou deixar que se perca?” 10Então Jesus olhou para todos os que estavam ao seu redor, e disse ao homem: “Estende a tua mão”. O homem assim o fez e sua mão ficou curada. 11Eles ficaram com muita raiva, e começaram a discutir entre si sobre o que poderiam fazer contra Jesus.





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Comentário do Revdo Pe. Julio César RAMOS González, SDB (Salta, Argentina)


Levanta-te e fica aqui no meio (...). Estende a mão

Hoje Jesus nos dá exemplo de liberdade. Falamos muitíssimo dela nos nossos dias. Mas a diferença do que hoje se apregoa e até se vive como liberdade,a de Jesus, é uma liberdade totalmente associada e aderida à ação do Pai. Ele mesmo dirá: Vos garanto que o Filho do homem não pode fazer nada por si só e sim somente o que vê o Pai fazer; o que faz o Pai, faz o Filho (Jo 5,19). E o Pai só obra, só age por amor.
O amor não se impõe, mas faz agir, mobiliza devolvendo com amplidão a vida. Aquele mandato de Jesus: Levanta-te e fica aqui no meio (Lc 6,8); tem a força recriadoura daquele que ama, e pela palavra age. Mas ainda, o outro: Estende tua mão,(Lc 6,10), que termina conseguindo o milagre, restabelece definitivamente a força e a vida daquele que estava débil e morto. Salvar é arrancar da morte e, é a mesma palavra que se traduz por sanar. Jesus curando, salva o que havia de morto nesse pobre homem doente, e isso é um claro signo do amor de Deus Pai para com suas criaturas. Assim, na nova criação onde o Filho não faz outra coisa mais do que vê fazer ao Pai, a nova lei que imperará será a do amor que se põe em obra e, não a de um descanso que inativa, inclusive, para fazer o bem ao irmão necessitado.
Então, liberdade e amor conjugados é a chave para hoje. Liberdade e amor conjugados à maneira de Jesus. Aquilo de: ama e faz o que queiras, de Santo Agostinho tem hoje vigência plena, para aprender a configurar-se totalmente com Cristo Salvador.




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Dos Comentários de Santo Ambrósio (c. 340-397), bispo e Doutor da Igreja.
Comentário sobre o Evangelho de S. Lucas, V, 39 (a partir da trad. SC, p.197 rev.)

«Encontrava-se ali um homem cuja mão direita estava paralisada»

A mão que Adão estendera para colher os frutos da árvore proibida, impregnou-a o Senhor da seiva salutar das boas obras, para que, estando ressequida pelo erro, fosse então curada pelas boas obras. Naquela ocasião, Cristo ataca os seus adversários, que com falsas interpretações violavam os princípios da Lei; julgavam eles que o sábado devia ser observado como dia de descanso, não se permitindo o trabalho, nem mesmo a realização de boas obras. Mas a Lei prefigurou no presente o aspecto do futuro onde, seguramente, será o mal a não trabalhar, não o bem [...].
Ouviste pois as palavras do Senhor: «Estende a tua mão». Eis o remédio para todo o homem. E tu, que crês ter a mão sã, toma cuidado para que a avareza, o sacrilégio, não a paralise. Estende-a pois, sempre: estende-a a esse pobre que te implora auxílio, estende-a para ajudares o teu próximo, para socorreres a viúva, para arrancares da injustiça aquele que vês submetido a uma imerecida vexação; estende-a a Deus, pelos teus pecados. Assim se deve estender a mão ; e assim ela será curada.

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Santo Henrique, padroeiro dos Oblatos


Muitos acusam a Idade Média como um "tempo de trevas" na História, e não tem como não pensar isto se não abrirmos os olhos e olharmos para o alto, pois neste lugar é que se encontram as luzes deste período, ou seja, os inúmeros santos e santas. Henrique faz parte deste "lustre", pois viveram - ele e sua esposa Santa Cunegundes - uma perfeita harmonia de afetos, projetos e ideais de santidade.



Henrique, primogênito do duque da Baviera, nasceu num belíssimo castelo às margens do rio Danúbio, em 973, e recebeu o mesmo nome do seu pai. Veio ao mundo para reinar, desfrutando de todos os títulos e benesses que uma corte imperial pode proporcionar ao seu futuro soberano, com os luxos e diversões em abundância. Por isto, foi uma grata surpresa para os súditos verem que o jovem se resguardou da perdição pela esmerada criação, dada por sua mãe.



Seu pai, antes conhecido como "o briguento", abriu seu coração à orientação da esposa, católica fervorosa, que anos depois seu apelido foi mudado para "o pacífico". Assim, seus filhos receberam educação correta e religiosamente conduzida nos ensinamentos de Cristo. Um dos irmãos de Henrique, Bruno, foi o primeiro a abandonar o conforto da corte para se tornar padre e, depois, Bispo de Augusta. Das irmãs, Brígida se fez monja e Gisela, Beata da Igreja, foi mulher do rei Estevão da Hungria, também um Santo.



O príncipe Henrique, na idade indicada, foi confiado ao Bispo de Ratisbona, São Wolfgang, e com ele se formou cultural e espiritualmente. A tradição germânica diz que uma noite Henrique sonhou com o seu falecido diretor espiritual, São Wolfgang. Este teria escrito na parede do quarto do príncipe: "entre seis". Henrique julgou que morreria dali a seis dias, o que não ocorreu. Depois, achou que a morte o alcançaria dali a seis meses. Isso também não aconteceu. Mas, seis anos após o sonho, ele assumiu o trono do Sacro Império Romano Germânico, coroado pelo Papa Bento VIII, quando da morte de seu pai.



Henrique II não poderia ter comandado o povo com mais sabedoria, humildade e cristandade do que já tinha. Promoveu a reforma do clero e dos mosteiros. Regeu a população com justiça, bondade e caridade, freqüentando com ela a Santa Missa e a Eucaristia. Convocou e presidiu os Concílios de Frankfurt e Bamberg. Realizou ainda muitas outras obras assistenciais e sociais. Modelo de governante católico, empenhou-se na propagação da Fé, tendo papel de grande importância para a conversão de seu cunhado Santo Estêvão, rei da Hungria. Procurou restaurar, conforme a espiritualidade de Cluny, o espírito monástico então decadente, sendo nesse ponto aconselhado por Santo Odilon, abade de Cluny.



Ao mesmo tempo em que defendia o povo e a burguesia contra os excessos de poder dos orgulhosos fidalgos, estabeleceu a paz com Roberto, rei da França. Com o fim da guerra, reconstruiu templos e mosteiros, destinando-lhes generosas contribuições para que se desenvolvessem e progredissem. Enfim, ao lado da esposa Cunegundes, agora Santa, concedeu à população incontáveis benefícios sociais e assistenciais, amparando os mais necessitados e doentes. O casal chegou a fazer voto eterno de castidade, para que, com mais firmeza de espírito, pudessem se dedicar apenas a fazer o bem ao próximo. Por sua insistência, o papa Bento VIII prescreveu o uso do Credo Niceno-Constantinopolitano aos domingos na missa em 1014.



Henrique II morreu em 13 de julho de 1024 e foi sepultado em Bamberg. Foi canonizado em 1152, pelo Papa Eugênio III. Talvez, o rei Santo Henrique II seja um dos santos mais queridos da Alemanha, ao lado de sua esposa.
 
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Oração a Santo Henrique

Senhor Deus, que cumulastes de graça o imperador Santo Henrique, elevando-o de modo admirável das preocupações do governo terrestre às coisas do céu, concedei por suas preces, que Vos procuremos de todo o coração entre as vicissitudes deste mundo.
Per Dominum nostrum Iesum Christum, Filium tuum, qui tecum vivit et regnat in unitate Spiritus Sancti Deus, per omnia saecula saeculorum. Amen.

domingo, 11 de julho de 2010

SOLENIDADE DE NOSSO PAI SÃO BENTO

(obrigado pela figura, Ir. Michael)

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Entre as coroas dadas pelo alto,
cujo louvor celebra o nosso canto
glorioso brilhas por merecer tanto,
grande São Bento!


Ainda jovem, te orna a santidade,
do mundo o gozo nada te roubou,
murcha a teus olhos deste mundo a flor,
olhas o alto.


Pátria e família deixas pela fuga,
e na floresta buscas teu sustento.
Ali rediges belo ensinamento
de vida santa.


Obediência à lei de Cristo ensinas
aos reis e povos, tudo o que lhe agrada.
Por tua prece, a nossa tenha entrada
aos bens do céu.


Glória a Deus Pai e ao Filho Unigênito,
e ao Santo Espírito honra e adoração.
Graças a ele, fulge o teu clarão
no céu. Amém.

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video



Da Regra de São Bento, abade

(Prologus, 4-22;cap.72,1-12:CSEL75,2-5.162-163)



Nada absolutamente prefiram a Cristo



Antes de tudo, quando quiseres realizar algo de bom, pede a Deus com oração muito insistente que seja plenamente realizado por ele. Pois já tendo se dignado contar-nos entre o número de seus filhos, que ele nunca venha a entristecer-se por causa de nossas más ações. Assim, devemos em todo tempo pôr a seu serviço os bens que nos concedeu, para não acontecer que, como pai irado, venha a deserdar seus filhos; ou também, qual Senhor temível, irritado com os nossos pecados nos entregue ao castigo eterno, como péssimos servos que o não quiseram seguir para a glória.
Levantemo-nos, enfim, pois a Escritura nos desperta dizendo: Já é hora de levantarmos do sono (cf. Rm 13,11). Com os olhos abertos para a luz deífica e os ouvidos atentos, ouçamos a exortação que a voz divina nos dirige todos os dias: Oxalá, ouvísseis hoje a sua voz: não fecheis os corações (Sl 94,8); e ainda: Quem tem ouvidos, ouça o que o Espírito diz às Igrejas (Ap 2,7).
E o que diz ele? Meus filhos, vinde agora e escutai-me: vou ensinar-vos o temor do Senhor (Sl 33,12). Correi, enquanto tendes a luz da vida, para que as trevas não vos alcancem (cf. Jo 12,35).
Procurando o Senhor o seu operário na multidão do povo ao qual dirige estas palavras, diz ainda: Qual o homem que não ama sua vida, procurando ser feliz todos os dias? (Sl 33,13). E se tu, ao ouvires este convite, responderes: Eu, dir-te-á Deus: Se queres possuir a verdadeira e perpétua vida, afasta a tua língua da maldade, e teus lábios, de palavras mentirosas. Evita o mal e faze o bem, procura a paz e vai com ela em seu caminho (Sl 33,14-15). E quando fizeres isto, então meus olhos estarão sobre ti e meus ouvidos atentos às tuas preces; e antes mesmo que me invoques, eu te direi: Eis-me aqui (Is 58,9).
Que há de mais doce para nós, caríssimos irmãos, do que esta voz do Senhor que nos convida? Vede como o Senhor, na sua bondade, nos mostra o caminho da vida!
Cingidos, pois, os nossos rins com a fé e a prática das boas ações, guiados pelo evangelho, trilhemos os seus caminhos, a fim de merecermos ver aquele que nos chama a seu reino (cf. 1Ts 2,12). Se queremos habitar na tenda real do acampamento desse reino, é preciso correr pelo caminho das boas ações; de outra forma, nunca chegaremos lá.
Assim como há um zelo mau de amargura, que afasta de Deus e conduz ao inferno, assim também há um zelo bom, que separa dos vícios e conduz a Deus. É este zelo que os monges devem pôr em prática com amor ferventíssimo, isto é, antecipem-se uns aos outros em atenções recíprocas (cf. Rm 12,10). Tolerem pacientissimamente as suas fraquezas, físicas ou morais; rivalizem em prestar mútua obediência; ninguém procure o que julga útil para si, mas sobretudo o que o é para o outro; ponham em ação castamente a caridade fraterna; temam a Deus com amor; amem o seu abade com sincera e humilde caridade; nada absolutamente prefiram a Cristo; e que ele nos conduza todos juntos para a vida eterna.

domingo, 4 de julho de 2010

SOLENIDADE DE SÃO PEDRO E SÃO PAULO, APÓSTOLOS



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HOJE SIMÃO PEDRO SUBIU À CRUZ, ALELUIA;
HOJE AQUELE QUE TEM AS CHAVES DO REINO
FOI ALEGRE AO ENCONTRO DE CRISTO;

HOJE PAULO, APÓSTOLO DAS NAÇÕES,
CONSQUISTOU, PELO NOME DE CRISTO,
A COROA DO MARTÍRIO, ALELUIA.




MARTIROLÓGIO ROMANO-MONÁSTICO

Solenidade dos Santos Apóstolos Pedro e Paulo, martirizados em Roma entre 64 e 67. São Pedro, escolhido por Cristo – depois de sua profissão de fé – para ser o fundamento da Igreja, foi confirmado em sua função de Pastor após ter expiado sua tríplice negação por uma declaração de amor, vindo mais tarde a sofrer um suplício semelhante ao de seu Divino Mestre. São Paulo, que era cidadão romano, foi decapitado depois de ter cumprido, por sua pregação e suas cartas, a missão de Doutor e arauto do Evangelho aos gentios, através da Ásia Menor e da Grécia durante cerca de trinta anos. Estas duas colunas da Igreja deram assim à Cidade Eterna, “sua doutrina junto com seu sangue” (Tertuliano).
Por determinação da Santa Sé, nos lugares onde não é feriado, esta solenidade
pode ser transferida do dia 29 para o domingo mais próximo.

Em Estremoz, Santa Isabel, rainha de Portugal, sobrinha-neta de Santa Isabel da Hungria. Casada aos doze anos com o rei D. Dinis de Portugal, passou toda a sua vida a trabalhar e orar pela paz na península Ibérica, e mais tarde morreu no convento das Clarissas de Coimbra, que havia fundado.
Os santos Oséias e Ageu, profetas do Antigo Testamento.
Em Berry, São Laureano, bispo de Sevilha, mártir, cuja relíquia da cabeça foi levada para Sevilha na Espanha.
Na África, o natalício de São Jucundiano, mártir, que, por causa de Cristo, foi lançado no mar.
Em Sírmio, os santos mártires Inocêncio e Sebástia, com trinta Companheiros.
Em Madaura, na África, São Nanfânio, mártir, e os Companheiros que ele animou para a luta, e conduziu à vitória.
Em Cirene, na Líbia, São Teodoro, bispo. Na perseguição de Diocleciano, açoitaram-no com chumbeiras, e cortaram-lhe a língua, sob o prefeito Digniano. Mas ele, afinal, morreu em paz, como confessor da fé.
Em Augsburgo, na Récia, Santo Ulrico, bispo, que se assinalou pela virtude de admirável abstinência, liberalidade e vigilância, bem como pelo dom dos milagres.
Finalmente, em outros locais, aniversário de numerosos outros santos, cujos nomes estão inscritos no Livro da Vida.

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Dos sermões de Santo Agostinho, bispo e Doutor da Igreja.
(Sermão 295, 1-2.4.7-8: PL 38, 1348-1352) (Sec. V)


Estes mártires deram testemunho do que viram

O dia de hoje é para nós dia sagrado, porque nele celebramos o martírio dos apóstolos São Pedro e São Paulo. Não falamos de mártires desconhecidos. A sua voz ressoou por toda a terra e a sua palavra até aos confins do mundo. Estes mártires deram testemunho do que tinham visto: seguiram a justiça, proclamaram a verdade, morreram pela verdade.

São Pedro é o primeiro dos Apóstolos, ardentemente apaixonado por Cristo, aquele que mereceu ouvir estas palavras: E Eu te digo que tu és Pedro. Antes dissera ele: Tu és Cristo, o Filho de Deus vivo. E Cristo respondeu-lhe: E Eu te digo que tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja. Sobre esta pedra edificarei Eu a mesma fé de que tu dás testemunho. Sobre a mesma afirmação que tu fizeste: Tu és Cristo, o Filho de Deus vivo, edificarei Eu a minha Igreja. Porque tu és Pedro. «Pedro» vem de «pedra»; não é «pedra» que vem de «Pedro». «Pedro» vem de «pedra», como «cristão» vem de «Cristo».

O Senhor Jesus, antes da sua paixão, escolheu, como sabeis, os discípulos a quem chamou Apóstolos. Entre estes, só Pedro mereceu representar em toda a parte a personalidade da Igreja inteira. Porque sozinho representava a Igreja inteira, mereceu ouvir estas palavras: Dar-te-ei as chaves do reino dos Céus. Na verdade, quem recebeu estas chaves não foi um único homem, mas a Igreja única. Assim se manifesta a superioridade de Pedro, porque ele representava a universalidade e unidade da Igreja, quando lhe foi dito: Dar-te-ei. Era-lhe atribuído nominalmente o que a todos foi dado.

Com efeito, para que saibais que a Igreja recebeu as chaves do reino dos Céus, ouvi o que o Senhor diz noutro lugar a todos os seus Apóstolos: Recebei o Espírito Santo. E logo a seguir: Àqueles a quem perdoardes os pecados ser-lhes-ão perdoados; àqueles a quem os retiverdes ser-lhes-ão retidos.

No mesmo sentido, também depois da ressurreição, o Senhor confiou a Pedro o cuidado de apascentar as suas ovelhas. Na verdade, não foi só ele, entre os discípulos, que recebeu a missão de apascentar as ovelhas do Senhor. Mas, referindo-se Cristo a um só, quis insistir na unidade da Igreja. E dirigiu-se a Pedro, de preferência aos outros, porque entre os Apóstolos, Pedro é o primeiro.
Não estejas triste, ó Apóstolo. Responde uma vez, responde outra vez, responde pela terceira vez. Vença por três vezes a tua profissão de amor, já que três vezes o temor venceu a tua presunção. Tens de soltar por três vezes o que por três vezes ligaste. Solta por amor o que ligaste pelo temor. E assim, uma vez e outra vez e pela terceira vez, o Senhor confiou a Pedro as suas ovelhas.

Num só dia celebramos o martírio dos dois Apóstolos. Na realidade, os dois eram como um só; embora tenham sido martirizados em dias diferentes, deram o mesmo testemunho. Pedro foi à frente; seguiu-o Paulo. Celebramos a festa deste dia para nós consagrado com o sangue dos dois Apóstolos. Amemos e imitemos a sua fé e a sua vida, os seus trabalhos e sofrimentos, o testemunho que deram e a doutrina que pregaram.





quinta-feira, 24 de junho de 2010

NATIVIDADE DE SÃO JOÃO BATISTA, QUE DÁ NOME A NOSSO MOSTEIRO




Boa noite, caros
Benedicite!

Publicamos abaixo, para celebrarmos a Solenidade de São João Batista, algumas homilias sobre este grande santo que proporcionou ao mundo a oportunidade de preparação, por meio do batismo de penitência, para receber o Senhor de toda a História!
Celebremos e meditemos!

Abraços em Cristo e em NP São Bento!



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João é seu nome
(Fr. Raniero Cantalamessa, OFMcap., pregador da Casa Pontifícia)

No espaço do XII domingo do Tempo Comum, este ano se celebra a Natividade de São João Batista. Trata-se de uma festa antiqüíssima; remonta ao século IV. Por que a data de 24 de junho? Ao anunciar o nascimento de Cristo a Maria, o anjo lhe diz que Isabel, sua parente, está no sexto mês. Portanto, o Batista devia nascer seis meses antes de Jesus e deste modo se respeita a cronologia (em 24, em vez de 25 de junho, se deve à forma de calcular dos antigos, não por dias, senão por Calendas, Idus e Nonas). Naturalmente, estas datas têm valor litúrgico e simbólico, não histórico. Não conhecemos o dia nem o ano exato do nascimento de Jesus e portanto tampouco de Batista. Mas isso muda o quê? O importante para a fé é o fato de que nasceu, não quando nasceu.

O culto difundiu-se rapidamente e João Batista converteu-se em um dos santos aos que estão dedicados mais igrejas no mundo. Vinte e três papas tomaram seu nome. Ao último deles, o Papa João XXIII, aplicou-se a frase que o Quarto Evangelho diz do Batista: «Houve um homem enviado por Deus; chamava-se João». Poucos sabem que a denominação das sete notas musicais (Do, Ré, Mi, Fá, Sol, Lá, Si) têm relação com João Batista. Obtêm-se da primeira sílaba dos sete versos da primeira estrofe do hino litúrgico composto em honra ao Batista.

A passagem do Evangelho fala da eleição do nome de João. Mas é importante também o que se escuta na primeira leitura e no salmo responsorial da festividade. A primeira leitura, do livro de Isaías, diz: «Desde o seio materno Iahweh me chamou, desde o ventre de minha mãe pronunciou o meu nome. De minha boca fez uma espada cortante, abrigou-me na sombra da sua mão; fez de mim uma seta afiada, escondeu-me na sua aljava». O salmo responsorial volta sobre este conceito de que Deus nos conhece desde o seio materno:

«Tu minhas vísceras formaste,
me teceste no ventre de minha mãe...
Meu embrião teus olhos viam».

Temos uma idéia muito redutiva e jurídica de pessoa que gera muita confusão no debate sobre o aborto. É como se uma criança adquirisse a dignidade de pessoa a partir do momento em que esta lhe é reconhecida pelas autoridades humanas. Para a Bíblia, pessoa é aquele que é conhecido por Deus, aquele a quem Deus chama por seu nome; e Deus, nos é assegurado, conhece-nos desde o seio materno, seus olhos nos viam quando éramos ainda embriões no seio de nossa mãe. A ciência nos diz que no embrião existe, em desenvolvimento, todo o homem, projetado em cada mínimo detalhe; a fé acrescenta que não se trata só de um projeto inconsciente da natureza, mas de um projeto de amor do Criador. A missão de São João Batista está toda traçada, antes que nasça: «E tu, menino, serás chamado profeta do Altíssimo, pois irás diante do Senhor para preparar seus caminhos...».

A Igreja considerou que João Batista foi santificado já no seio materno pela presença de Cristo; por isto celebra a festividade de seu nascimento. Isto nos oferece a ocasião para tocar num problema delicado, que se converteu em agudo por causa das milhões de crianças que, sobretudo pela terrível difusão do aborto, morrem sem ter recebido o batismo. O que dizer delas? Também foram de alguma maneira santificadas no seio materno? Há salvação para elas?

Minha resposta é sem vacilo: claro que há salvação para elas. Jesus ressuscitado diz também delas: «Deixai que as crianças venham a mim». Segundo uma opinião comum desde a Idade Média, as crianças não batizadas iam para o Limbo, um lugar intermediário no qual não se sofre, mas tampouco se goza da visão de Deus. Mas se trata de uma idéia que não foi jamais definida como verdade de fé pela Igreja. Era uma hipótese dos teólogos que, à luz do desenvolvimento da consciência cristã e da compreensão das Escrituras, já não podemos manter.

Quando expressei há tempo esta opinião minha em um destes comentários dominicais, recebi diferentes reações. Alguns mostravam gratidão por esta tomada de posição que lhes tirava um peso do coração; outros me reprovaram que entrasse na doutrina tradicional e diminuísse a importância do batismo. Agora a discussão está fechada, porque recentemente a Comissão Teológica Internacional, que trabalha para a Congregação [vaticana] para a Doutrina da Fé, publicou um documento no qual afirma o mesmo.

Parece-me útil voltar sobre o tema à luz deste importante documento, para explicar algumas das razões que levaram a Igreja a esta conclusão. Jesus instituiu os sacramentos como meios ordinários para a salvação. São, portanto, necessários, e quem, podendo-os receber, contra a própria consciência os rejeita ou os descuida, põe em sério perigo sua salvação eterna. Mas Deus não se atou a estes meios. Ele pode salvar também por vias extraordinárias, quando a pessoa, sem culpa sua, é privada do batismo. O fez, por exemplo, com os Santos Inocentes, mortos também eles sem batismo. A Igreja sempre admitiu a possibilidade de um batismo de desejo e de um batismo de sangue, e muitas destas crianças conheceram de verdade um batismo de sangue, ainda que de natureza distinta...

Não creio que a clarificação da Igreja alente o aborto; se assim fosse seria trágico e teria que se preocupar seriamente não da salvação das crianças não batizadas, mas dos pais batizados. Seria brincar de Deus. Tal declaração dará, ao contrário, um pouco de alívio aos crentes que, como todos, questionam-se consternados pela sorte atroz de muitas crianças do mundo de hoje.

Voltamos a João Batista e à festa do domingo. Ao anunciar a Zacarias o nascimento de seu filho, o anjo lhe disse: «Isabel, tua mulher, vai te dar um filho, ao qual porás o nome de João. Terás alegria e regozijo, e muitos se alegrarão com o seu nascimento» (Lucas 1, 13-14). Muitos na verdade se alegraram por seu nascimento, se à distância de vinte séculos seguimos ainda falando desse menino.

Desejaria fazer dessas palavras a expressão de um desejo a todos os pais e mães que, como Isabel e Zacarias, vivem o momento da espera ou do nascimento de um filho: que também vós possais regozijar-vos e alegrar-vos no menino ou na menina que Deus vos confiou e vos alegreis de seu nascimento por toda vossa vida e pela eternidade!

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Solenidade de São João Batista
(Dom Henrique Soares da Costa, bispo auxiliar de Aracaju - SE)



Além da Virgem Maria Mãe de Deus, Nossa Senhora, de nenhum outro santo a Igreja celebra o nascimento, a não ser São João, chamado Batista, Batizador. Dele, Jesus fez o maior elogio jamais feito pelo Salvador a alguém:“Em verdade vos digo que, entre os nascidos de mulher, não surgiu nenhum maior que João, o Batista” (Mt 11,11). Por isso, caríssimos, a hodierna solenidade!
Que lições, que meditações, que exemplos poderíamos colher nesta Festa, tendo escutado a Palavra que nos foi anunciada? Sugiro-vos três, que alimentem o coração, afervorem o desejo de colocar-se ao serviço do Senhor e nos conduzam à herança eterna.
Primeiro. A primeira leitura da Liturgia nos fez escutar a profecia de Isaías, colocando as palavras do profeta na boca de João Batista: “O Senhor chamou-me antes de eu nascer, desde o ventre de minha mãe ele tinha na mente o meu nome... fez de mim uma flecha aguçada e disse-me ‘Tu és meu servo, em quem serei glorificado’” E o salmo de meditação fez eco a tão bela idéia: “Senhor, vós me sondais e conheceis. Fostes vós que me formastes as entranhas/ e no seio de minha mãe vós me tecestes./ Até o mais íntimo me conheceis;/ nenhuma sequer de minhas fibras ignoráveis,/ quando eu era modelado ocultamente,/ era formado nas entranhas subterrâneas!” O que aparece aqui, caríssimos em Cristo, é que viemos a este mundo não por acaso, não sem um propósito. Somos todos fruto de um sonho de Deus, fomos todos misteriosamente chamados à vida: o Senhor pensou em nós, nos chamou, nos plasmou – e aqui estamos! O nascimento que hoje celebramos, do filho de Zacarias e Isabel, foi fruto do desígnio amoroso do Pai, que pelo Filho Jesus e para o Filho Jesus, na força do Espírito Santo, plasmou João. Por isso seu nome é tão verdadeiro: “Iohanah”, em hebraico: Deus dá a graça! Ele mesmo, João, já é uma graça de Deus para seus pais e para todos os que esperavam a salvação de Israel.
Hoje, quando um mundo insensível e descrente já não reconhece que a vida é um mistério de amor, é um chamado de Deus, quantos são abortados, quantos deixados de modo indigno e imoral no frio congelamento dos laboratórios de procriação artificial: lá esquecidos, lá manipulados em inaceitáveis experiências pseudo-científicas! Nós, caríssimos, que ouvimos a Palavra santa de Deus; nós, que nos alegramos com este nascimento, nunca esqueçamos: toda vida humana é sagrada do primeiro ao último instante do nosso caminho terreno. É imoral, perverso e desumano um governo que reduz a questão do aborto a problema de “política pública”. Um dia esses senhores irão prestar contas a Deus. Será mesmo que Deus aceitará este argumento, que não passa de disfarce para matar? Que o Senhor nos ajude a defender a vida, a gritar por ela! Que o Senhor também nos dê a sabedoria para descobrir e experimentar que a nossa vida – por quanto pobre e pequena – também e preciosa! Que hoje eu me pergunte: Qual o propósito da minha existência? Já o descobri? Já me conformei a ele? Vosso sou, Senhor, de vós nasci e para vós nasci! Que quereis fazer de mim?
Segundo. Ainda que a vida nossa seja fruto do amor do Senhor, isso não significa facilidades. João deveria preparar o caminho do Messias, do Cristo de Deus. E isto iria custar-lhe: “Eu disse: ‘Trabalhei em vão, gastei minhas forças sem fruto, inutilmente; entretanto o Senhor me fará justiça e o meu Deus me dará recompensa’” O grande desafio da nossa vida de crentes é viver na presença de Deus, é ser fiel à sua santa vontade e à missão que ele nos confiou. Ser fiel à missão custou a João: a dureza do deserto, as incompreensões dos inimigos, a trama de Herodíades, a dificuldade de perceber a vontade Deus (basta recordar João perguntando a Jesus: “És tu aquele que há de vir, ou devemos esperar um outro?”- Mt 11,3) e, finalmente, o aparente abandono, o aparente absurdo do silêncio de Deus, na solidão e na morte naquele cárcere. O que manteve João fiel até o fim? A confiança no Senhor, a capacidade de deixar-se guiar por Deus, sem querer ele mesmo controlar sua vida! Grande João! Fiel João! Pobre de Deus, João! Que exemplo para nós, tanta vez tentados a fazer da vida o que bem queremos, como se nascêssemos de nós mesmos e vivêssemos para nós mesmos! “Quer vivamos quer morramos, pertencemos ao Senhor! (Rm 14,8)”
Terceiro. Certa vez São Paulo escreveu: “Nenhum de nós vive para si...” (Rm 14,7) Desde o ventre materno, o Senhor chamou João para ser o que prepara o caminho, o que vem antes, o “pré-cursor” Toda a sua existência foi “precursar”! No terceiro evangelho isso aparece de modo comovente: anuncia-se o nascimento de João e depois o de Jesus; narra-se a natividade de João e a seguir a do Messias; apresenta-se o ministério de João e, após sua prisão, o do Salvador; finalmente, narra-se a morte de João, prenúncio da morte do nosso Senhor! Eis! Não é fácil não viver para si, não é fácil deixar que Outro seja o centro! E, no entanto, como diz a segunda leitura, “João declarou: ‘Eu não sou aquele que pensais que eu seja! Depois de mim vem Aquele, do qual nem mereço desamarrar as sandálias’”; “É necessário que ele cresça e eu diminua!” Santo profeta João Batista: sendo humilde, foi o maior dos nascidos de mulher; sendo totalmente preso à sua missão de modo fiel e constante, foi livre de verdade; sendo todo esquecido de si e lembrado de Deus, foi maduro e feliz! Por isso mesmo, seu nome foi verdadeiro e traduziu perfeitamente seu ser e sua missão: João, Iohanah: Deus dá a graça. E a graça que, para seus pais, foi João no seu nascimento, nas verdade era outra graça: a graça que Deus dá é Jesus, o Messias; graça que João anunciou com seu nascimento, com sua vida, com sua pregação e com sua morte!
Que este grande profeta, o maior do Antigo Testamento, do céu interceda por nós, nascidos do Novo Testamento e, por isso, maiores que João, o Grande Precursor! Amém.

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Dos Sermões de Santo Agostinho, bispo
(Sermo 293,1-3: PL 38,1327-1328)
(Séc.V)


Voz do que clama no deserto


A Igreja celebra o nascimento de João como um acontecimento sagrado. Dentre os
nossos antepassados, não há nenhum cujo nascimento seja celebrado solenemente.
Celebramos o de João, celebramos também o de Cristo: tal fato tem, sem dúvida, uma
explicação. E se não a soubermos dar tão bem, como exige a importância desta
solenidade, pelo menos meditemos nela mais frutuosa e profundamente. João nasce de
uma anciã estéril; Cristo nasce de uma jovem virgem.
O pai de João não acredita que ele possa nascer e fica mudo; Maria acredita, e Cristo é
concebido pela fé. Eis o assunto que quisemos meditar e prometemos tratar. E se não
formos capazes de perscrutar toda a profundeza de tão grande mistério, por falta de
aptidão ou de tempo, aquele que fala dentro de vós, mesmo em nossa ausência, vos
ensinará melhor. Nele pensais com amor filial,a ele recebestes no coração, dele vos
tornastes templos.
João apareceu, pois, como ponto de encontro entre os dois Testamentos, o antigo e o
novo. O próprio Senhor o chama de limite quando diz: A lei e os profetas até João
Batista (Lc 16,16). Ele representa o antigo e anuncia o novo. Porque representa o
Antigo Testamento, nasce de pais idosos; porque anuncia o Novo Testamento, é
declarado profeta ainda estando nas entranhas da mãe. Na verdade, antes mesmo de
nascer, exultou de alegria no ventre materno, à chegada de Maria. Antes de nascer, já é
designado; revela-se de quem seria o precursor, antes de ser visto por ele. Tudo isto são
coisas divinas, que ultrapassam a limitação humana. Por fim, nasce. Recebe o nome e
solta-se a língua do pai. Relacionemos o acontecido com o simbolismo de todos estes
fatos.
Zacarias emudece e perde a voz até o nascimento de João, o precursor do Senhor; só
então recupera a voz. Que significa o silêncio de Zacarias? Não seria o sentido da
profecia que, antes da pregação de Cristo, estava, de certo modo, velado, oculto,
fechado? Mas com a vinda daquele a quem elas se referiam, tudo se abre e torna-se
claro. O fato de Zacarias recuperar a voz no nascimento de João tem o mesmo
significado que o rasgar-se o véu do templo, quando Cristo morreu na cruz. Se João se
anunciasse a si mesmo, Zacarias não abriria a boca. Solta-se a língua, porque nasce
aquele que é a voz. Com efeito, quando João já anunciava o Senhor, perguntaram-lhe:
Quem és tu? (Jo 1,19). E ele respondeu: Eu sou a voz do que clama no deserto (Jo 1,23).
João é a voz; o Senhor, porém,no princípio era a Palavra (Jo 1,1). João é a voz no
tempo; Cristo é, desde o princípio, a Palavra eterna.

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Homilia do Pe. Pavlos Tamanini (sacerdote ortodoxo)




o dia 24 de junho, os cristãos do Oriente e do Ocidente celebram o nascimento de São João Batista. Também coincide, nas duas tradições, a data em que se celebra o seu martírio em 29 de agosto. No Oriente bizantino, porém, as comemorações do grande Profeta e Precursor são sem dúvida mais numerosas.
Com relação ao nascimento, os calendários bizantinos assinalam, no dia 23 de setembro, a data da concepção do "glorioso Profeta, Precursor João, o que batizou Jesus no Jordão". Antigamente também os martirológios latinos registravam essa comemoração em 24 de setembro; porém a partir do século XV foi abolida.
Na tradição oriental é comum iconografar São João Batista na forma de um Anjo. Com efeito "era mais que um homem", como diz o evangelho, e a palavra "mensageiro" em grego aggeloV coincide com nossa tradução". Sendo um dos santos mais venerados no Oriente bizantino, é compreensível que muitas sejam as formas de representá-lo em ícones: encontramo-lo representado sozinho, ou em episódios da sua vida, especialmente o da sua decapitação.
João é filho de Zacarias que, por causa de sua pouca fé, tornou-se mudo, e de Isabel, aquela que era estéril. O nascimento de João Batista anuncia a chegada dos tempos messiânicos, nos quais a esterilidade se tornará fecundidade e o mutismo, exuberância profética.
O evangelho lhe dá o cognome de."Batista", porque ele anuncia um novo rito de ablução (Mt 3,13-17), na qual o batizado não imerge sozinho na água, como nos ritos e nos batismos judaicos, mas recebe a água das mãos de um ministro. João pretendia mostrar assim que o homem não se pode purificar sozinho, mas que toda santidade vem de Deus.
João Batista é também lembrado como um homem de grande mortificação. Talvez tenha ele sido iniciado esta disciplina nas comunidades religiosas do deserto. Mas a tradição lembra, sobretudo seu caráter profético. Ele é profeta por um duplo titulo. Antes de tudo é profeta no sentido em que essa palavra era entendida no Antigo Testamento; aliás, João é o maior dos profetas de Israel, porque pôde apontar o objeto de suas profecias (Mt 11,7-15; Jo 1,19 28). Para realçar essa pertença de João à grande descendência dos profetas do Antigo Testamento, Lucas nos narra seu nascimento, permitindo ver através dele o perfil das grandes vocações dos antigos profetas.
Mas o profeta não é apenas o anunciador do futuro messiânico; é essencialmente o portador da palavra de Deus e a testemunha da presença dessa Palavra criadora no mundo novo.
Ele aponta para os futuros discípulos de Cristo a quem esses deveriam seguir. Mostra o Cordeiro e orienta que o sigam.