Mostrando postagens com marcador Música Sacra e Canto Gregoriano. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Música Sacra e Canto Gregoriano. Mostrar todas as postagens

domingo, 12 de junho de 2011

Pentecostes com o Papa



Prezados irmãos e irmãs!

Na solene celebração do Pentecostes, somos enviados a professar a nossa fé na presença e na acção do Espírito Santo e a invocar a sua efusão sobre nós, sobre a Igreja e sobre o mundo inteiro. Portanto, façamos nossa, e com intensidade particular, a invocação da própria Igreja:  Veni, Sancte Spiritus! Uma invocação tão simples e imediata, mas ao mesmo tempo extraordinariamente profunda, que brota em primeiro lugar do Coração de Cristo. Com efeito, o Espírito é o dom que Jesus pediu e pede continuamente ao Pai pelos seus amigos; o primeiro e principal dom que nos obteve com a sua Ressurreição e Ascensão ao Céu.
Desta oração de Cristo fala-nos o trecho evangélico hodierno, que tem como contexto a Última Ceia. O Senhor Jesus disse aos seus discípulos:  "Se Me amardes, guardareis os meus mandamentos. E Eu suplicarei ao Pai e Ele dar-vos-á outro Consolador, a fim de permanecer convosco para sempre" (Jo 14, 15-16). Aqui revela-se-nos o Coração orante de Jesus, o seu Coração filial e fraterno. Esta oração alcança o seu ápice e o seu cumprimento na cruz, onde a invocação de Cristo se identifica com o dom total que Ele faz de si mesmo, e deste modo o seu rezar torna-se por assim dizer o próprio selo do seu doar-se em plenitude por amor ao Pai e à humanidade:  invocação e doação do Espírito Santo encontram-se, compenetram-se e tornam-se uma única realidade. "E Eu suplicarei ao Pai e Ele dar-vos-á outro Consolador, a fim de permanecer convosco para sempre". Na realidade, a oração de Jesus – a da Última Ceia e a da cruz – é uma oração que permanece também no Céu, onde Cristo está sentado à direita do Pai. Com efeito, Jesus vive sempre o seu sacerdócio de intercessão a favor do povo de Deus e da humanidade, e portanto reza por todos pedindo ao Pai o dom do Espírito Santo.
A narração do Pentecostes no livro dos Actos dos Apóstolos – ouvimo-lo na primeira leitura – (cf.Act 2, 1-11) apresenta o "novo curso" da obra de Deus, encetado com a ressurreição de Cristo, obra que envolve o homem, a história e o cosmos. Do Filho de Deus morto e ressuscitado, que voltou para o Pai, emana agora sobre a humanidade com energia inédita o sopro divino, o Espírito Santo. E o que produz esta nova e poderosa autocomunicação de Deus? Onde existem lacerações e estraneidades, ela cria unidade e compreensão. Tem início um processo de reunificação entre as partes da família humana, divididas e dispersas; as pessoas, muitas vezes reduzidas a indivíduos em competição ou em conflito entre si, alcançadas pelo Espírito de Cristo, abrem-se à experiência da comunhão, que pode empenhá-las a ponto de fazer delas um novo organismo, um novo sujeito:  a Igreja. Este é o efeito da obra de Deus:  a unidade; por isso, a unidade é o sinal de reconhecimento, o "cartão de visita" da Igreja no curso da sua história universal. Desde o início, do dia do Pentecostes, ela fala todas as línguas. A Igreja universal precede as Igrejas particulares, as quais devem conformar-se sempre com ela, segundo um critério de unidade e universalidade. A Igreja nunca permanece prisioneira de confins políticos, raciais ou culturais; não se pode confundir com os Estados e nem sequer com as Federações de Estados, porque a sua unidade é de outro tipo e aspira a atravessar todas as fronteiras humanas.
Amados irmãos, disto deriva um critério prático de discernimento para a vida cristã:  quando uma pessoa, ou uma comunidade, se fecha no seu próprio modo de pensar e de agir, é sinal que se afastou do Espírito Santo. O caminho dos cristãos e das Igrejas particulares deve confrontar-se sempre com o da Igreja, una e católica, e harmonizar-se com ele. Isto não significa que a unidade criada pelo Espírito Santo é uma espécie de igualitarismo. Pelo contrário, ela é sobretudo o modelo de Babel, ou seja, a imposição de uma cultura da unidade que poderíamos definir "técnica". Com efeito, a Bíblia diz-nos (cf. Gn 11, 1-9) que em Babel todos falavam uma só língua. Pelo contrário, no Pentecostes os Apóstolos falam línguas diferentes, de modo que cada um compreenda a mensagem no seu próprio idioma. A unidade do Espírito manifesta-se na pluralidade da compreensão. A Igreja é por sua natureza una e múltipla, destinada como está a viver em todas as nações, em todos os povos e nos mais diversificados contextos sociais. Ela responde à sua vocação, de ser sinal e instrumento de unidade de todo o género humano (cf. Lumen gentium1), apenas se permanece autónoma de qualquer Estado e de toda a cultura particular. Sempre e em cada lugar, a Igreja deve ser verdadeiramente católica e universal, a casa de todos, onde cada um se pode encontrar.
A narração dos Actos dos Apóstolos oferece-nos também outra sugestão muito concreta. A universalidade da Igreja é expressa pelo elenco dos povos, segundo a antiga tradição:  "Somos Partas, Médios, Elamitas...", etc. Pode-se observar aqui que São Lucas vai além do número 12, que já expressa sempre uma universalidade. Ele olha além dos horizontes da Ásia e do noroeste da África, e acrescenta outros três elementos:  os "Romanos", ou seja, o mundo ocidental; os "judeus e prosélitos", incluindo de modo novo a unidade entre Israel e o mundo; e enfim "Cretenses e Árabes", que representam Ocidente e Oriente, ilhas e terra firme. Esta abertura de horizontes confirma ulteriormente a novidade de Cristo na dimensão do espaço humano, da história das gentes:  o Espírito Santo envolve homens e povos e, através deles, supera muros e barreiras.
No Pentecostes, o Espírito Santo manifesta-se como fogo. A sua chama desceu sobre os discípulos reunidos, acendeu-se neles e infundiu-lhes o novo ardor de Deus. Realiza-se assim aquilo que o Senhor Jesus tinha predito:  "Vim lançar fogo sobre a terra; e como gostaria que ele já tivesse sido ateado!" (Lc 12, 49). Juntamente com os fiéis das diversas comunidades, os Apóstolos levaram esta chama divina até aos extremos confins da Terra; abriram assim um caminho para a humanidade, uma senda luminosa, e colaboraram com Deus que com o seu fogo quer renovar a face da terra. Como é diferente este fogo, daquele das guerras e das bombas! Como é diverso o incêndio de Cristo, propagado pela Igreja, em relação aos que são acendidos pelos ditadores de todas as épocas, também do século passado, que atrás de si deixam terra queimada. O fogo de Deus, o fogo do Espírito Santo, é aquele da sarça que ardia sem se consumir (cf. Êx 3, 2). É uma chama que arde, mas não destrói; aliás, ardendo faz emergir a parte melhor e mais verdadeira do homem, como numa fusão faz sobressair a sua forma interior, a sua vocação à verdade e ao amor. 
Um Padre da Igreja, Orígenes, numa das suas Homilias sobre Jeremias, cita um dito atribuído a Jesus, não contido nas Sagradas Escrituras mas talvez autêntico, que reza assim:  "Quem está comigo está junto do fogo" (Homilia sobre Jeremias l. I [III]). Com efeito, em Cristo habita a plenitude de Deus, que na Bíblia é comparado com o fogo. Há pouco pudemos observar que a chama do Espírito Santo arde mas não queima. E todavia, ela realiza uma transformação, e por isso deve consumir algo no homem, as escórias que o corrompem e o impedem nas suas relações com Deus e com o próximo. Porém, este efeito do fogo divino assusta-nos, temos medo de nos "queimar", preferiríamos permanecer assim como somos. Isto depende do facto que muitas vezes a nossa vida é delineada segundo a lógica do ter, do possuir, e não do doar-se. Muitas pessoas crêem em Deus e admiram a figura de Jesus Cristo, mas quando se lhes pede que abandonem algo de si mesmas, então elas recuam, têm medo das exigências da fé. Existe o temor de ter que renunciar a algo de bonito, ao que estamos apegados; o temor de que seguir Cristo nos prive da liberdade, de certas experiências, de uma parte de nós mesmos. Por um lado, queremos permanecer com Jesus, segui-lo de perto, e por outro temos medo das consequências que isto comporta.

Caros irmãos e irmãs, temos sempre necessidade de ouvir o Senhor Jesus dizer-nos aquilo que Ele repetia aos seus amigos:  "Não tenhais medo!". Como Simão Pedro e os outros, temos que deixar que a sua presença e a sua graça transformem o nosso coração, sempre sujeito às debilidades humanas. Temos que saber reconhecer que perder algo, aliás, perder-se a si mesmo pelo Deus verdadeiro, o Deus do amor e da vida, é na realidade ganhar, encontrar-se mais plenamente a si próprio. Quem se confia a Jesus experimenta já nesta vida a paz e a alegria do coração, que o mundo não pode dar, e nem sequer pode tirar, uma vez que foi Deus quem no-las concedeu. Portanto, vale a pena deixar-se tocar pelo fogo do Espírito Santo! A dor que nos causa é necessária para a nossa transformação. É a realidade da cruz:  não é por acaso que, na linguagem de Jesus, o "fogo" é sobretudo uma representação do mistério da cruz, sem o qual o cristianismo não existe. Por isso, iluminados e confortados por estas palavras de vida, elevemos a nossa invocação:  Vinde, Espírito Santo! Ateai em nós o fogo do vosso amor! Sabemos que esta é uma oração audaz, com a qual pedimos para ser tocados pela chama de Deus; mas sabemos sobretudo que esta chama – e só ela – tem o poder de nos salvar. Para defender a nossa vida, não queremos perder a vida eterna que Deus nos quer conceder. Temos necessidade do fogo do Espírito Santo, porque só o Amor redime. Amém!

terça-feira, 2 de novembro de 2010

Dies Irae

Benedicite!



Clique no link abaixo para ouvir este belo hino do século XIII, que trata justamente do julgamento que a humanidade há de sofrer, num primeiro momento individualmente (na hora da morte) e depois todos os viventes na volta do Cristo (parusia). Acredita-se ter sido escrito por Tomás de Celano. Sua inspiração parece vir da Vulgata, tradução de Sofonias 1:15–16. Originalmente era a sequência da Missa de Defuntos, porém depois da Reforma Conciliar, a Igreja propõe-o para a celebração do Ofício Divino (forma Romana) precisamente na Última Semana do Tempo Comum, em que refletimos acerca da Escatologia Final. Serve como uma bela reflexão para o dia de Finados. Aliás, atendamos o que NP São Bento nos pede na Santa Regra, para que reflitamos acerca da morte todos os dias.


http://www.youtube.com/watch?v=Dlr90NLDp-0


Segue a letra, em latim, e logo abaixo a tradução. Para os que lêem a notação neumática e gostam de gregoriano, segue a partitura.




Dies Irae


1


Dies iræ! dies illa

Solvet sæclum in favilla

Teste David cum Sibylla!



2

Quantus tremor est futurus,

quando judex est venturus,

cuncta stricte discussurus!



3

Tuba mirum spargens sonum

per sepulchra regionum,

coget omnes ante thronum.



4

Mors stupebit et natura,

cum resurget creatura,

judicanti responsura.



5

Liber scriptus proferetur,

in quo totum continetur,

unde mundus judicetur.



6

Judex ergo cum sedebit,

quidquid latet apparebit:

nil inultum remanebit.



7

Quid sum miser tunc dicturus?

Quem patronum rogaturus,

cum vix justus sit securus?



8

Rex tremendæ majestatis,

qui salvandos salvas gratis,

salva me, fons pietatis.



9

Recordare, Jesu pie,

quod sum causa tuæ viæ:

ne me perdas illa die.



10

Quærens me, sedisti lassus:

redemisti Crucem passus:

tantus labor non sit cassus.



11

Juste judex ultionis,

donum fac remissionis

ante diem rationis.



12

Ingemisco, tamquam reus:

culpa rubet vultus meus:

supplicanti parce, Deus.



13

Qui Mariam absolvisti,

et latronem exaudisti,

mihi quoque spem dedisti.



14

Preces meæ non sunt dignæ:

sed tu bonus fac benigne,

ne perenni cremer igne.



15

Inter oves locum præsta,

et ab hædis me sequestra,

statuens in parte dextra.



16

Confutatis maledictis,

flammis acribus addictis:

voca me cum benedictis.



17

Oro supplex et acclinis,

cor contritum quasi cinis:

gere curam mei finis.



18


Lacrimosa dies illa,

qua resurget ex favilla

judicandus homo reus.



19

Huic ergo parce, Deus:

Pie Jesu Domine,

dona eis requiem. Amen.

 

 
Tradução:


1

Dia da Ira, aquele dia

Em que os séculos se desfarão em cinzas,

Testemunham David e Sibila!



2

Quanto terror é futuro,

quando o Juiz vier,

para julgar a todos irrestritamente !



3

A tuba esparge o poderoso som

pela região dos sepulcros,

convocando todos ante o Trono.



4

A morte e a natureza se aterrorizam

ao ressurgir a criatura

para responder ao Juiz.



5

o Livro escrito aparecerá

em que tudo há

em que o mundo será julgado.



6

Quando o Juiz se assentar

o oculto se revelará,

nada haverá sem castigo !



7

Que direi eu, pobre miserável?

A que Paráclito rogarei,

quando só os justos estão seguros ?



8

Rei, tremenda Majestade,

que ao salvar, salva pela Graça,

salva-me, fonte Piedosa.



9

Recordai-vos, piedoso Jesus,

de que sou a causa de Vossa Via;

não me percais nesse dia.



10

Resgatando-me, sentistes lassidão,

me redimistes sofrendo a Cruz;

Que tanto trabalho não tenha sido em vão.



11

Juiz Justo da Vingança Divina,

Dai-me a remissão dos meus pecados,

antes do dia Final.



12

Clamo, como condenado,

a culpa enrubesce meu semblante

suplico a Vós, ó Deus



13

Ao que perdoou a Madalena,

e ouviu à súplica do ladrão,

Dai-me também esperança.



14

Minha oração é indigna,

mas, pela Vossa Bondade atuais,

Não me deixeis perecer cremado no Fogo Eterno.



15

Colocai-me com as ovelhas

Separai-me dos cabritos,

Ponde-me à Vossa direita;



16

Condenai os malditos,

lançai-os nas flamas famintas,

Chamai-me aos benditos.



17

Oro-Vos, rogo-Vos de joelhos,

com o coração contrito em cinzas,

cuidai do meu fim.



18

Lacrimoso aquele dia

no qual, das cinzas, ressurgirá,

para ser julgado, o homem réu.



19

Perdoai-os, Senhor Deus

Piedoso Senhor Jesus,

Dai-lhes descanso eterno, Amém!